... pelo simples e indelével prazer da leitura e da escrita!

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sexta-feira, 29 de março de 2013


UM QUASE …É NADA! 

Quase é nada ou é o pouco (ou muito) que foi? Devemos contentar-nos e usufruirmos deste quase ou rebelarmo-nos e não aceitarmos senão o pleno? Servirá o quase de consolação ou devemos arriscar e avançar para tentar o pleno?

Com o quase fica a sensação péssima do que poderia ter sido, mas não chegou a ser. É verdade que podemos sempe fantasiar que o pleno teria sido muito bom, em vez da hipotética deceção de o vivermos. Ah, mas a desilusão de um quase, de tudo o que poderia ter sido e não foi!

O quase beijo, a quase média, o quase emprego, a quase viagem (quem quase amou não amou). Quantas oportunidades se escaparam por entre os dedos, por medo, por cobardia, por falta de coragem! Economiza-se alma em função da cobardia, do receio do risco.            

            Que se gaste mais tempo realizando do que sonhando, mais fazendo do que planeando, mais vivendo do que esperando! Perder com classe e viver com ousadia. A vida é muito para dela fazermos pouco!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012


ENTRE DÚVIDAS E CERTEZAS

            A certeza traz a tranquilidade. Toda a dúvida suscita dor antecipada e eventualmente desnecessária. É sempre mais difícil de suportar do que a dor de uma má certeza. Esta, mesmo quando dolorosa, acaba por, a pouco e pouco, inspirar a sensação de calma, de que o mundo gira no eixo certo. A certeza permite agir com discernimento, em função de um objetivo. A dúvida agita-nos, desorienta-nos, baralha as emoções, é leal e infiel, verdadeira e falsa, faz-nos cair, errar, sofrer.
            Mas não pode a certeza ser mais perigosa do que a dúvida? Não será esta fruto da imaginação, da inteligência? Ah, e o rompante da incerteza que traz emoção à vida?!
            Cheia de duvidosas certezas!

quarta-feira, 25 de julho de 2012


TRAIR OU NÃO TRAIR


ELE – Só devemos manter-nos fiéis a nós mesmos. Além disso, a lealdade reside numa identidade de almas raramente encontrada.

ELA – Não te parece que a deslealdade nasce, também, dos muros que criamos à nossa volta, fruto da insatisfação humana?

ELE – Da insatisfação em relação a desejos e expectativas, de pequenas vinganças, do estímulo provocado pela sensação de perigo ... De tantos momentos e sentimentos!

ELA – Exceto  do amor …

ELE – Exceto do amor, claro, reconheço. Mas crês que quando alguém trai o/a parceiro/a não vive um conflito interno , não acaba por sentir culpa?

ELA – A traição só acontece quando a relação já não está harmoniosa.

ELE – Errado. Todas as pessoas são potenciais traidores, independentemente do estado da relação que mantêm.

ELA – Mas isso significaria uma verdadeira batalha quotidiana para segurar o parceiro! Todos estamos, diariamente, expostos a tentativas de sedução no nosso local de trabalho, na rua, na Internet …

ELE – Por isso mesmo, o conceito de posse tornou-se absurdo. Ninguém consegue controlar ninguém. Tal como a ideia de casamento. Se este não tiver como fim um contrato comercial e social já não faz sentido.

ELA – E  dentro ou fora de todos esses conceitos que rejeitas – casamento, lealdade, honestidade … - onde é que aparece o amor?

ELE – Deverias perguntar quando e não onde. Conheces as palavras de Vinicius de Moraes?

             “Eu possa me dizer do amor (que tive)

                Que não seja imortal, posto que é chama

                 Mas que seja infinito enquanto dure”

ELA – Basicamente, parece-me que tudo se resume a uma questão de caráter. E esse, tem-se ou não.

ELE – Basicamente, parece-me que tudo se resume ao amor: ou se ama e não se trai – por uns tempos – ou não se ama e se dá largas à infidelidade dos genes dos sentimentos!

segunda-feira, 11 de junho de 2012


AMAR POR REFERÊNCIA

Terá o conceito de amor mudado ao longo dos tempos?
Dizem alguns entendidos, estudiosos da história do amor – haverá uma? – que hoje se ama por referências. De facto, assistimos, frequentemente, a casos em que, claramente, a união de duas pessoas acontece meramente por interesse(s). É a profissão do outro, a conta bancária, a forma de vestir, os lugares frequentados, a beleza física, enfim, todo o estilo de vida que se adequa e encaixa na perfeição no que cada um formulou como objetivos de vida. A situação pode ocorrer, com níveis diferentes de percetibilidade, em diferentes camadas sociais, mas parece ser transversal a todas. Na verdade, se a empresária de sucesso procura um companheiro dentro do seu estrato social, financeiro e cultural – ou superior – também a empregada doméstica rejeitará, à partida, um vagabundo sem eira nem beira.
Apontam-se, hoje em dia, vários agentes facilitadores destas “combinações”. De entre eles, talvez os mais convincentes, categóricos, possam ser o económico – e lá vem a crise justificar, mais uma vez, o, a meu ver, injustificável – e o modismo. Deste último também é difícil escapar. Todos os dias somos atacados por jornais, revistas, televisões, outdoors, no sentido da valorização do ter – pior: do parecer! – em detrimento do ser. A questão económica levará, realmente, muitas pessoas a partilharem as suas vidas porque a partilha de despesas torna o quotidiano mais confortável.
Mas, reportemo-nos ao passado. Não precisamos de recuar muito no tempo para nos lembrarmos da dependência da mulher em relação ao homem. Salvo honrosas exceções ditadas por circunstâncias várias, as mulheres dependiam dos homens, tanto na vertente económica como na familiar e na social. Como é que as mulheres – ou os pais – escolhiam os maridos? Tendo em conta a situação de vida dos candidatos, claro. E como é que os homens escolhiam as esposas? Sobressaíam, na altura, as prendas domésticas, a beleza física e o património financeiro, claro.
Poder-se-á, então, dizer que o leitmotiv das relações “amorosas” mudou? Ou será que  ele apenas se tornou mais visível, já que as mulheres são mais independentes e escolhem os companheiros de forma mais aberta? É que associar as nossas mães e avós a escolhas frias e racionais dos seus maridos, movidas por um desejo de uma vida confortável, parece-nos um sacrilégio.
Sejamos, então, nós – os que, de vez em quando, pensamos nestas coisas – o mais racionais possível. Então não é natural que as pessoas se agrupem de acordo com os seus interesses? Com limites mais ou menos definidos, cada um procura na sua esfera de amigos, conhecidos ou “assim-assim” a pessoa com quem gostaria de partilhar a sua vida. Tratar-se-á, no fundo, de uma questão de interesses mais do que de interesse. Um plural que faz toda a diferença!
O interesse dos interesseiros sobreviverá enquanto a humanidade existir.
Os verdadeiros interesses que despoletam o amor, esses serão intemporais!

sábado, 9 de junho de 2012


Valores (Re)Encontrados

Há alguns dias atrás, publiquei, aqui, um texto sobre péssimos exemplos de péssimos hábitos dos portugueses. Apraz-me, agora, publicar outro que retrata uma situação oposta a essa e que nos faz, ainda, ter esperança em valores que, de vez em quando, damos como perdidos.
            No passado domingo, fui almoçar fora com alguns familiares, a propósito do aniversário de uma prima. Paralelamente às nossas mesas mais umas quantas ocupadas por cerca de vinte pessoas, entre as quais dois rapazes e uma rapariga de capa e batina. Soubemos, mais tarde, que era o dia da Bênção das Pastas. (Ainda sou do tempo em que a bênção se realizava no domingo anterior ao início da Queima das Fitas!). No fim do almoço, cantámos, discretamente, os parabéns à aniversariante e batemos umas palmas também discretas … logo secundadas pelas das mesas ao lado. Agradecemos e oferecemos metade do bolo de aniversário. Um dos rapazes veio, então, à nossa mesa parabenizar a aniversariante, agradecer o bolo, oferecer um cartão de visita e conversar um bocadinho connosco. As três famílias de Bragança tinham vindo almoçar com os jovens, naquele dia especial. Os três eram estudantes de arquitetura a um ano do fim do curso. Acabámos por sair, tarde, do restaurante todos ao mesmo tempo e as famílias ainda fizeram questão de se despedirem de nós.
            Contado assim, parece nada haver de relevante na atitude sobretudo dos jovens. Mas, a verdade é que estamos tão habituados a presenciar, mesmo em estudantes universitários, comportamentos tão pouco próprios, tão inadequados às regras básicas de uma sã convivência, que nos espantamos quando encontramos seres considerados normais dentro dos parâmetros da sociedade que nos formatou, talvez exageradamente, é certo, mas com a qual temos de (con)viver.
            Felizmente, ainda há quem valorize, a regra mágica do respeito pelos outros!

domingo, 27 de maio de 2012


CIVISMO: UM LEGADO A APERFEIÇOAR

            Não tenho por hábito escrever textos de opinião, mas há situações que me incomodam de sobremaneira.
            Ontem, depois de ter assistido a um espetáculo de música, dirigi-me, com alguns amigos, à esplanada de um café do meu bairro. Espaço interior amplo, uma esplanada meio-fechada, outra completamente aberta. Quase todas as mesas ocupadas, num fim de tarde fresco.
            O empregado chegou minutos depois de nos termos acomodado. Um cheiro a suor que fazia adivinhar muito mais do que apenas uma tarde de trabalho numa camisa que de branco-sujo já só tinha a segunda parte. Apertou a mão a um dos meus amigos – como se já tivesse trocado com ele mais do que duas ou três conversas de circunstância! – e trouxe rapidamente as bebidas, é certo. Um copo para mim, que tinha pedido água, mas nenhum para as minhas amigas que pediram cerveja. Estaria, certamente, o senhor à espera de se deliciar a ver três senhoras, entre os quarenta e os cinquenta anos, a beberem cerveja por uma garrafa! Penso até que esperaria ver as ditas senhoras, enquanto bebiam pela garrafa, descansarem os pés em cima da mesa e arrotarem a seguir a cada gole!
            Resolvida a questão da falta de copos, comecei a reparar em pormenor insólito. No topo da esplanada, mesmo em frente a mim, três homens, na casa dos quarenta anos, e, empilhadas geometricamente em cima da mesa, uma dúzia de “loiras”. De cada vez que o empregado passava por ali, virava-se de costas para o interior do café e de frente para nós e emborcava um valente gole de cerveja de uma das várias garrafas. Prefiro presumir que conseguia discernir qual era a “sua” e que utilizava sempre a mesma! Esta situação repetiu-se, sistematicamente, durante a cerca de hora e meia que por ali permanecemos.
            Snob? Consevadora? “Comichosa”? Talvez. Mas, acredito que, para qualquer pessoa, teria sido mais agradável ao olfato que o dito senhor tivesse cuidado da sua higiene corporal, antes de se aproximar dos clientes. E teria sido, certamente, mais agradável à vista que se tivesse abstido de emborcar cerveja da mesa de clientes, enquanto trabalhava. É de lamentar que, por circunstâncias várias, a disciplina de Formação Cívica não seja lecionada de acordo com o objetivo que, acredito, tenha norteado a sua conceção: educar as crianças para que se tornem cidadãos que respeitem o civismo que nos permite vivermos em sociedade, evoluirmos no respeito que devemos uns aos outros! Os quase cinquenta anos de atraso que a nossa História nos legou já não justificam a falta de civismo que grassa, ainda, entre muitos portugueses!