... pelo simples e indelével prazer da leitura e da escrita!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012


TEMPO

 
O Tempo perdeu-se de mim,

Esquecida num tempo difuso,

Borboleta sem asas,

Ainda em tempo de voar!

 
Passa por mim sem me ver

Arrasta a altivez da sua intemporalidade.

 
Chama-me o espelho.

Trocista, brinca com o Tempo.

Devolve a imagem de um tempo sem tempo

Borboleta voando em tempo infinito!
 

Chama-me o Tempo

Terei ainda tempo? …

quinta-feira, 30 de agosto de 2012


EM TEMPO PARADO

Andam-me os pensamentos por longe nestas horas maldosas de mim. Deitei-me com cuidado, em lençóis de mar, à espera de ser feliz. Mas deitarmo-nos assim é o reverso do abandono. Por isso o meu corpo dançou na agitação dos terrores escondidos do dia. Acordei o sono e esperei o sonho impensado. Porém, o tempo, implacável, parou como relógio sem corda, trazendo um vazio desencaminhado. Cedi. Levantei-me em pedaços, pequenos fragmentos quase impercetivelmente unidos. Deambulei num presente exíguo no tempo de um sopro que me pareceu eterno. Pouco tempo é muito quando o vazio pesa uma vida.

O espelho … Quase reconheço o meu rosto por detrás de um véu azul. (Sou azul, dizem.) Nas maçãs do rosto o brilho dos sorrisos vivenciados, nos olhos as alegrias compartilhadas, nos lábios o som das palavras doces como mel. Sinto ali, de novo, o tempo de rir, de abraçar, de ter. Estranhamente o meu rosto no espelho não devolve a minha surpresa. Na obscuridade um novo rosto começa a delinear-se. Vagamente familiar, mas quase disforme. Nas maçãs do rosto cicatrizes de deceções vividas, nos olhos marcas de feridas mal cicatrizadas, nos lábios o som das palavras amargas. Perscruto-lhe os detalhes para procurar no fundo da memória o reconhecimento. Mas o rosto pouco mais é do que o defeito de um espelho gasto e sujo que deforma a visão. Sinto ali o tempo de chorar, de afastar, de perder. Arrepia-me a estranheza do olhar que me devolve. Naturalmente os rostos  aproximam-se um do outro e diluem-se, misturando alegrias e mágoas, risos e choros, tempos de luz e de trevas. Parada neste tempo morto, reconheço, finalmente, o meu rosto. Miscelânea de tempos passados e presentes.

O dia de amanhã ainda está limpo, branco, pronto a ser escrito. Amanhecerei num tempo em que ainda haja tempo para reinventar palavras, amores, sonhos? Saberei dosear com parcimónia o relógio das minhas pressas e dos meus vagares? A um passo do amanhã, à espera do inesquecível…

 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012


HISTÓRIAS DO FIM DA RUA

            Mais uma vez Mário Zambujal nos brinda com um leque de personagens cuja simplicidade exterior esconde uma densa complexidade psicológia. O autor perceciona, de forma brilhante, os comportamentos sociais de várias gerações e em várias épocas. Muito interessante, também, a carta que Alice Vieira escreveu a Zambujal acerca da sua obra e personagens e que o autor incluiu no livro, em posfácio.

           
 Mário Zambujal, jornalista e autor de várias séries de televisão, publicou vários livros, sempre caracterizados por uma escrita vivaz e cheia de humor.

domingo, 26 de agosto de 2012


D. MARIA II

Numa escrita fluída e simples, o que, dada a extensão da obra, permite uma leitura estimulante para leitores menos experientes, e baseada em cartas e diários de algumas das personagens, Isabel Stilwell narra a vida da rainha D. Maria II, desde a sua infância, no Brasil, até à morte, em Portugal, passando pela sua estadia na Europa. O enquadramento histórico leva-nos a conhecer outras personagens reais e relevantes da época, sobretudo do quadrante político, num ambiente cheio de intrigas, traições, amores e lealdades, tal como a vida é. Uma excelente forma romanceada de nos sugerir como teria sido a vida destas pessoas que tendemos a ‘ver’ como virtuais, tal a distância temporal que nos separa.

 
“Isabel Stilwell é jornalista e escritora. Actualmente é directora do jornal Destak. Foi directora da revista Notícias Magazine e tem um longo percurso na imprensa escrita. Sempre se confessou apaixonada por romances históricos. A autora obteve um enorme sucesso nos seus três romances históricos, Filipa de Lencastre, Catarina de Bragança e D. Amélia.”

    

 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

COIMBRA


DÁDIVA

Salga-me a pele em ondas de desejo.

Agita-me entre sonhos nas areias do vento.

Ah, beija-me assim como quem se dá num fio de vida!

Embriaga-me totalmente!

Segue-me como água, fogo e vento!

Enamora-me delicadamente …

Despe-me da seda pura

E ouve o meu olhar.

E nesse pequeno segundo de eternidade em que me beijares

Cachos de estrelas se derramarão no ouro da luz,

Pedaços do espelho do teu riso estrelado

Nos meus olhos se agitarão.

E nos teus, entreabertos, duas pequenas gotas para me afogarem.

Ah, beija-me assim como quem se dá e recebe!

O tempo é uma traição.

Beija-me agora, enquanto somos presente!


domingo, 12 de agosto de 2012


UMA FAZENDA EM ÁFRICA 

            Em meados do século XIX, um grupo de colonos portugueses, saídos de Pernambuco, funda uma colónia agrícola, no sul de Angola. Começa aí, praticamente, a colonização de Moçâmedes. Somos guiados por uma África inóspita, dura, cruel para os nossos padrões culturais, mas também geradora de sentimentos e emoções enternecedores. É-nos também feito um belíssimo retrato da Lisboa da época, no que respeita à sua vida social e política.
Entre um cheirinho a África Minha, no romance entre os protagonistas, e algumas personagens queirosianas, preferi Pascoal e Eva pela simplicidade e intensidade da sua história, mas também pelo seu dificilmente adivinhado fim trágico. Aliás, não me agradou o final da história, não tanto pelo conteúdo, mas pela forma. Uma história tão empolgante merecia, creio, um final mais forte.



João Pedro Marques nasceu em Lisboa, em 1949. Doutorou-se em História, na Universidade de Lisboa, tendo aí lecionado História de África, nos anos 90. Escreveu vários artigos sobre história colonial e vários livros publicados em Nova Iorque e Oxford. Em 1987 integrou o Instituto de Investigação Científica Tropical, como investigador, tendo sido Presidente do Conselho Científico desse instituto em 2007-2008. Em 2010 lançou o seu primeiro romance histórico OS Dias da Febre.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012


MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA

            A história fascinante de uma menina que é vendida, aos nove anos, para ser tornar, anos mais tarde, numa famosa gueixa do bairro de Gion, em Quioto, cerca dos anos 20. A narradora leva-nos através da ingenuidade da sua infância perdida, das desilusões da adolescência e de um amor de quase sempre que acaba por viver na plenitude da sua vida adulta. A verdade é que, se estivesse nas minhas mãos decidir o destino de Sayuri – blasfémia! -, tê-la-ia feito apaixonar-se, inesperada e perdidamente, por Nobu, o herói de uma guerra que o deixara sem um braço e com a pele do rosto desfigurada pelas queimaduras, de caráter irascível e duro, mas senhor de um sentido de honra irrepreensível e de um autodomínio unicamente abalável quando olhava para Sayuri como se ela fosse o Sol! Diz Nobu, num assomo de simplicidade, profundidade e tristeza atroz: "Não gosto de ter a acenar diante de mim as coisas que não posso ter."  Reconheço, no entanto, que deve ser difícil resistir à tentação de unir a heroína ao galã comum. Entramos num mundo estranho e peculiar do qual, confesso, conhecia apenas alguns contornos. Sem dúvida, um dos melhores livros que li ultimamente!



Arthur Golden nasceu em Chattanooga, no Tennessee, em 1956. Formou-se em História de Arte, na Universidade de Harvard, e especializou-se em Arte Japonesa, na Universidade de Columbia, devido à sua atração pelo mundo oriental, que o levou, também, a aprender mandarim e a viver em Pequim e Tóquio. Trabalhou como editor no Chattanooga Times Golden. Vive, atualmente, em Brooklin, Massachussets.