... pelo simples e indelével prazer da leitura e da escrita!

sábado, 29 de dezembro de 2012


UMA CASA

ELE - Estou a construir uma casa.
ELA - Não tinha percebido.
ELE - Pensei que a querias construir comigo.
ELA - Querer é diferente de dever.
ELE - Queres, mas não deves. É assim?
ELA - Sim.
ELE - Porquê?
ELA - Não confio na solidez da casa.
ELE - A solidez está a ser construída lentamente.
ELA - Concordo com essa ideia, se a pensarmos só por si. O tempo parece-me  
          fundamental para consolidar o que quer que seja.
ELE - Então por que não confias?
ELA - Não consegues dedicar-te à construção de uma única casa. Sentes necessidade
         de vários ninhos. Ergues um pilar importante nesta, mas, logo de seguida,
         abandona-la para ires colocar um tijolo noutra, um pedaço de cimento noutra,
         uma pintura noutra ainda. Isso inviabiliza uma construção sólida, segura,
         confiável.
ELE - São tijolos, cimentos, pinturas isolados. Sem relevância. Esta é que é a casa
         importante.
ELA - Errado. A simples existência de várias casas retira importância a esta. Além disso,
         construíste a tua casa importante há muito tempo. Esta seria apenas temporária.
         ‘Tudo mesmo que durante pouco tempo’, não é? Prefiro ‘tudo durante muito 
         tempo’.
ELE - Intransigente!
ELA - Não, convicta!
ELE – A convicção é a maior inimiga da verdade.
ELA – A tua verdade é pouco.
ELE – A tua verdade é que tens medo de te expores.
ELA – Expormo-nos ao outro é o prelúdio da traição.
ELE – Cavas um fosso entre nós …
ELA – Constróis pontes entre muitas casas ...

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Há cada vez mais ebooks em português 

Mesmo que um ebook jamais substitua o livro em suporte de papel - o cheiro, a textura, a imagem da folha ... -, esta pode ser uma boa possibilidade, em tempos de crise!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


OUTRO CAMINHO

            Sozinho no meio da multidão, olhava em volta, procurando referências. Um recanto conhecido, um rosto vagamente familiar, algo que o ligasse à sua vida. Nada. Absolutamente nada. Sorriu, feliz. Estava completamente sozinho no mundo.
Assolou-o, novamente, aquela sensação de inebriante liberdade. Há oito horas atrás, do outro lado do planeta, cortara todos os laços. A ideia germinava nele há algum tempo. Era, no entanto, algo utópico que, acreditava, nunca conseguiria levar a cabo. Começara por pensar, como quase todos nós, uma vez na vida, em como lhe apetecia desaparecer, deixar tudo e todos para trás. Mas, ao contrário do que acontece com a maioria das pessoas, nele a ideia foi ganhando corpo, tomando contornos de quase obsessão. Mesmo assim, sentia-se incapaz de a concretizar. Era apenas um refúgio num desvão escondido da sua mente. Mas, a discussão com o chefe, aquela pequena e inconsequente troca de palavras que, noutro momento, com outra pessoa, teria sido irrelevante, fê-lo decidir-se. Sabia que nunca conseguiria justificar o motivo daquela tomada de decisão, naquele momento.
Documentos e dinheiro no bolso, partiu. Sem explicações, sem despedidas. Partiu. A verdade é que sabia que já há muito tempo tinha partido. O percurso até ao aeroporto demorou o tamanho do seu silêncio. O táxi rodava numa cadência veloz sobre o tapete negro da estrada. No aeroporto, o vozear da multidão toldava-lhe a vista. Podia escolher qualquer destino e nenhum teria de ser definitivo. Podia fazer o que lhe apetecesse. A escolha recaiu sobre o país o mais longínquo possível da vida que deixava para trás.
E ali estava. Sem remorsos, duvídas ou tristezas. Sabia que não ficaria na memória de ninguém pelo poder transformador das palavras nem pelo poder  regenerador dos seus atos. Seria apenas a recordação do inexplicável. Sentia-se completamente livre. Libertara-se do pó, do nada com que o tempo se encarregara de o cobrir.
Olhou, de novo em redor. E deixou que os seus passos o guiassem na direção que – livremente! – escolhera.

domingo, 16 de dezembro de 2012


NOITE LONGA

2.00. E o sono não chega.
            2.47. Lá fora, o som de três pancadas fortes, logo a seguir, o estilhaçar de vidros e, um minuto depois, o som de um carro a arrancar a alta velocidade. O café em frente é, mais uma vez, assaltado. Parece que a máquina do tabaco, mesmo à entrada, é bastante apelativa. O vizinho do lado telefona à polícia e explica o que acaba de acontecer. Minutos depois, um carro para.
            2.12. O vizinho do lado volta ao telemóvel. Desta vez deve ser alguma amiga também notívaga. Prefiro tentar evitar perceber o que ele diz, mas o tom em que fala não deixa dúvidas. Efabulo, imediatamente, um daqueles tórridos, impossíveis e fugazes amores virtuais. (Pelo tom de voz, tórrido é pouco!) Deve tê-la conhecido num chat, no Facebook ou num blogue. Não importa. O rapaz é novo, tem tempo de sobra para desperdiçar e perceber o que é verdadeiramente importante na vida.
            3.08. A vida vai passando por aqui. Um episódio antigo, outro recente, um triste, outro feliz. E o sono não chega. Noite tão longa, tantas coisas para resolver! Não me apetece. Prefiro conversar contigo. Gosto mesmo destas conversas. Não podes interromper-me, irritar-me, fingir que não percebeste nem “encostar-me à parede” com perguntas de respostas difíceis. Não deixarás nem eu deixo palavras presas numa refração de instantes. Uma espécie de vingançazinha pessoal. Os pensamentos são as sombras dos nossos sentimentos.
            6.00. Começa a formar-se aquele limbo entre o estado desperto e o adormecido. As imagens misturam-se, confundem-se, diluem-se umas nas outras. Não me apetece adormecer …
            Acordarei daqui a pouco e lavarei dos olhos os restos de treva. Por agora, vou ao encontro de mim.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012



O PRISIONEIRO DO CÉU

            O autor afirma que o livro pode ser lido independentemente d’ A Sombra do Vento e d’ O Jogo do Anjo. No entanto, na minha opinião perder-se-ia bastante da consistência da história, já que ela vive, essencialmente, das personagens daqueles dois livros. A história leva-nos ao recorrente espaço de eleição de Záfon: Barcelona. Reencontramos, também, o Cemitério dos Livros Esquecidos. As personagens continuam misteriosas, mas, desta vez, menos obscuras, o ocultismo está mais diluído no enredo. Falta-lhe a emoção dos dois primeiros livros. Mesmo assim, é sempre um prazer ler Carlos Ruiz Záfon.

           Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona, em 1964 e é, hoje, um dos autores mais lidos, reconhecido em todo o mundo. Tendo estudado no Colégio dos Jesuítas de Sarriá, estudou jornalismo e trabalhou em publicidade. Abandonou a sua actividade como director criativo de uma grande empresa, em 1992, para começar a escrever. Vive em Los Angeles, California. É guionista cinematográfico e colabora com os jornais La Vanguardia e El País.
            Escreveu: El Príncipe de la Nieba (prémio Edebé), 1993; O Palácio da meia-noite, 1994; As luzes de Setembro, 1995 (Estes três livros seriam compilados, em 2007, n’ A Trilogia da Neblina); A Sombra do Vento (finalista do Prémio do Romance Fernando Lara, 2001 e do Prémio Libreter, 2002); O Jogo do Anjo, 2008; Marina, 2010

 

 

                  

sexta-feira, 30 de novembro de 2012



Adriana - Pior que Perder
A estopa ao pé do lume …
        
              O rumor das vozes que se afastavam ainda era percetível quando, a poucos metros dali, começou a ouvir-se um crepitar ligeiro.
              A estopa esticou um pouco uma ponta do seu tecido e, espreitando por entre os ramos secos do arbusto, vislumbrou umas fagulhas raras. Curiosa, arrastou-se para fora do arvorezita para observar a ténue luz.
              Também esta, ainda em fogo lento, se apercebeu da discreta presença do tecido e pareceu ganhar mais vida. Alimentava-se de uns poucos ramos ressequidos que por ali jaziam e, à vista da estopa, espevitou-se mais. Sempre era uma novidade, um entretenimento.
              Ela, atraída pela luz e pelo som do ainda pequeno lume, aproximou-se mais um pouco. Cuidadosamente, claro. Sabia bem o previsível triste fim que a esperava se se acercasse demasiado.
              A aproximação do tecido agitou o lume que engrandeceu, crepitando, agora, em fogo vivo, com chamas altas e fortes. Saberia a estopa o perigo que a esperava ao brincar com o fogo? Não pretendia fazer-lhe mal, mas o pedaço de tecido não arrepiava caminho e a tentação de o usar como combustível era imensa. O perigo era mútuo, já que também ele, sem outra fonte que o alimentasse, se consumiria no tecido. Por que não voltava para trás?
              Atraída pelo calor do lume, a estopa continuava a aproximar-se. Tinha a certeza de saber onde parar para não se queimar. Era um paninho com lume no olho: esperto, vivo, perspicaz.
              Já sem controlo, o braseiro ardia, agora, num crescendo de vaidade, atraindo para si a confiante e orgulhosa estopa que presumia conseguir escapar quando quisesse.
              A um golpe de fogo um do outro, ambos testavam os seus limites, desafiando-se ...
 

              (Gosto de narrativas abertas … permitem tantas conclusões!)Novo



 


Tentativa de phis


 




domingo, 25 de novembro de 2012


HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA

            Raimundo Silva, um revisor de livros, na casa dos cinquenta anos, com uma vida bastante vazia, marcada pelo rigor, pelo cinzentismo, por hábitos rígidos, introduz, voluntariamente, uma palavra nova nas provas de um tratado de História intitulado “História do Cerco de Lisboa”. Assim, os cruzados não teriam ajudado os portugueses a conquistar Lisboa. Paralelamente, o revisor, que já nada mais esperava da vida, envolve-se, sentimentalmente, com a editora Maria Sara que o incentiva a reescrever a História. Num extraordinário jogo de palavras, Saramago constrói alguns momentos de uma sedução inteligente, mesclando os desejos da alma e do corpo.
            “ […] Posso dizer-lhe que a amo, Não, diga só que gosta de mim, Já o disse, Então guarde o resto para o dia em que for verdade, se esse dia chegar, Chegará, Não juremos sobre o futuro, esperemo-lo para ver se ele nos reconhece […] ”
“ […] Ninguém deveria poder dar menos do que deu alguma vez, não se dão rosas hoje para dar um deserto amanhã, Não haverá deserto, É só uma promessa, não o sabemos […] “


JOSÉ SARAMAGO nasceu a 16 de novembro de 1922, na Azinhaga, Golegã, e morreu em 18 de junho de 2010, nas Canárias. Recebeu o prémio Camões, em 1995, e o prémio Nobel da Literatura, em 1998. Foi escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta.
Escreveu uma obra vastíssima.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012


ENTRE O CÉU E O INFERNO

Sentada na nuvem desço os olhos para os caminhos que se cruzam, entrelaçam. As cores do meu verão desenham caminhos, enquanto desmaia setembro. Ouço a frescura dos mercados, cheiro o verde da folhagem, acaricia-me o vento. Pinto os caminhos com as cores das palavras, atiro-lhes um punhado de doces saudades vagabundas. Suaves veredas serpenteiam por vales, ladeadas de verde e brilho. Correm paralelas, juntas, entrecruzam-se, soltam-se aqui e ali para, pouco depois, se voltarem a encontrar. Sonho passeios reais, correrias, risos e afagos.
A plenitude do momento desequilibra-me. A queda parece interminável.
Sentada na rocha negra, ergo os olhos para os caminhos de lume, sombras e incertezas. As bocas negras dos vulcões lançam a densidade que envolve os trilhos rasgados a fogo na terra. O vazio pesa-me mundos sobre os ombros. Por entre árvores calcinadas, imagens disformes espelham-se na lava que vem envolver-me. Mergulho nas chamas, envolta na memória da vida.

domingo, 18 de novembro de 2012

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Pela grandeza da imensidão da alma
Pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens ...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma

                                                       Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 16 de novembro de 2012


ALMA ALADA

Hoje nasci pássaro. Colorido, vivo, brilhante de vida. Enchi-me de mim e parti com destino.
Logo de manhã, timidamente e sem pressa, a primavera pincelava a paisagem com as suas cores preferidas, um rubor de sol nascente. No ar, uma brisa morna envolvia o azul líquido e silencioso que beijava a praia. Recordei-a fresca, cheia, gritante, nos dias em que a luz cortante feria os olhos, cheirava a sol e a mar. Reconheci cada seixo, cada rochedo, cada amor.
Chamou-me o azul e deixei-me ir na luz viva e bem disposta, rumo à casa. A casa. A primavera soprava com tanta força que era impossível não sentir a sua presença. A alegria subiu e alargou-se como um nevoeiro, enchendo-me a alma, a sensação, a ideia. A casa era tão fresca que se ouvia o branco. Reconheci traço, cada ruga, cada sinal. E o som daquelos dedos a sapatear em cima da mesa, arranhando o cérebro à superfície e fazendo barulho onde nem pensávamos que tínhamos ouvidos.
O sol arrastava em liberdade a sua cauda fulgurante quando pousei perto de ti. Pensei que rever-te seria como quando nos dias de chuva intensa os horizontes se fecham ao fim da rua. Mas, na quietude da tarde quente, recordei cada riso teu, cada carícia, cada olhar.
O dia morria quando as minhas asas se fecharam. Procurei-me em quem fui, percorri passados. A viagem demorou o tamanho da minha saudade.
Hoje nasci pássaro. Amanhã nascerei raíz bem presa à terra, de novo.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


Silêncio

Arde-me este silêncio
Das conversas que tenho contigo
Sem ti.
 
Silêncio de mãos sôfregas, vadias, vazias …

Enrolo-me no cobertor da saudade
E, num sopro,
Sonho-te assim.     

 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A minha homenagem a quem se despediu da minha mãe homenageando-a(nos) desta forma bonita ...
 
                            

                               SORRISO



                       Mais importante que o poder dos versos,

                       Que as métricas e as rimas infinitas,

                       Que as Leis da Vida, sérias, esquisitas

                       Ou a existência doutros Universos;

  

                       Que os filósofos, loucos, controversos,

                       Que os amigos-amantes eremitas,

                       Que as brandas tradições cosmopolitas

                       Ou os ditos jocosos e dispersos;

 

                       Que a Lua, o Sol, o Vento e os Sete Mares,

                       Que o aperto de mão dos nossos pares

                       Ou a voz – liberdade do improviso;

  

                       Que teres chegado aos Céus e veres a Cristo…

                       – Mais importante, pois, que tudo isto,

                       Foi teres ‘sculpido em Gente o teu sorriso!

 
 

                                                                Com um (e)terno beijo de saudade,
                                                                                             
                                                                                                                3/11/12/
                                                                                       

                                                                                                          Paulo Ilharco

segunda-feira, 29 de outubro de 2012


VIDAS RECRUZADAS 

            Meio dia em ponto. Cumpria-se o ritual das últimas semanas. O carro parou em frente à janela dela. Ele saiu. Cumprimentaram-se. Ele dirigiu-se a casa. Ela seguiu-o com os olhos, ele com o pensamento e o sorriso divertido de quem se sabe seguido. Ao entrar em casa, virou-se, acenou-lhe e ela retribuiu. A porta fechou-se. A janela fechou-se.
            E, um dia, o encontro na loja dos telemóveis. O sorriso. A fila que desesperava por andar. O cumprimento. E a fila que não andava. A conversa de circunstância. A fila que não andava. A conversa mais próxima. A fila que, felizmente, não andava. Ele, divorciado, de volta a casa dos pais. Ela, livre, na mesma casa. A maldita máquina que gritava já o número da senha dela. Os longos momentos de conversa com o funcionário. A pressa fingida da despedida. A deceção do nada.
            E, subitamente, a voz dele a agarrar o momento. “ Um café, à tarde, no Lusitano? ”. E o sol a inundar o tempo do reencontro.  

quinta-feira, 25 de outubro de 2012


ENTRE DÚVIDAS E CERTEZAS

            A certeza traz a tranquilidade. Toda a dúvida suscita dor antecipada e eventualmente desnecessária. É sempre mais difícil de suportar do que a dor de uma má certeza. Esta, mesmo quando dolorosa, acaba por, a pouco e pouco, inspirar a sensação de calma, de que o mundo gira no eixo certo. A certeza permite agir com discernimento, em função de um objetivo. A dúvida agita-nos, desorienta-nos, baralha as emoções, é leal e infiel, verdadeira e falsa, faz-nos cair, errar, sofrer.
            Mas não pode a certeza ser mais perigosa do que a dúvida? Não será esta fruto da imaginação, da inteligência? Ah, e o rompante da incerteza que traz emoção à vida?!
            Cheia de duvidosas certezas!

terça-feira, 23 de outubro de 2012


MACHOS E FÊMEAS


            Fuscas espreguiçou-se, languidamente, na fofa almofada  colocada num canto estratégico da sala. Fugira das mãos geladas da chuva e aquecia-se, agora, na poeira dos dedos quentes do sol tardio. Havia dois meses que chegara àquela casa e reconhecia, apesar da rabujice que habitualmente demonstrava, que já se afeiçoara ao espaço e àquela dona de humores incertos, mas intensos. Apesar de partilhar a absurda mania de os humanos tratarem os gatos como se fossem idiotas e de o encher de festas lamechas. Chamava-lhe ‘’bichaninho’’ – ‘’bichaninho’’, ele!!! -, mas também tinha o seu feitiozinho, coisa que lhe agradava profundamente. Percebia-lhe o caráter semelhante às criaturas do mesmo género da sua própria espécie. Era volúvel e tinha acessos ora de fúria ora de uma lamechice enjoativa. Uma vez ouvira-a, de telemóvel na mão, dizer ao interlocutor: “Tenho horror do ridículo!”.  Sentia alguma solidariedade para com o pobre, que adivinhava ser, salvaguardadas as devidas diferenças, uma criatura humana do seu género. Mas, aquelas palavras da dona fizeram-no render-se a ela. Afinal, o género feminino devia ser todo igual! Ele, sim, considerava-se um gato de raça. Ciumento, interesseiro e desconfiado.

            Por vezes, a dona escorria mel, a voz aveludava-se-lhe e quase ronronava. Outras - a Fuscas eriçavam-se-lhe os pêlos! -, quase a via pôr as unhas de fora, afiadas e prontas a rasgarem o pescoço do interlocutor. Apesar do caráter insolente de que se gabava, sentia um certo respeito por uma fêmea irritada. (Se ela pudesse ler-lhe as palavras! Não percebia por que é que as criaturas humanas do sexo feminino sentiam como pejorativa a palavra fêmea. Mas sabia que, se a dona o ouvisse … nem queria imaginar o que lhe aconteceria!) Sabia do que eram capazes. E a sua dona exasperava-se com alguma facilidade. Ou seria aquela criatura específica do género masculino que a levava a limites que já lhe pareciam ilimitados? A verdade é que não lhe conhecera outro interlocutor. Já percebera que ela ficava solenemente irritada quando percebia que ele lhe percebia os ciúmes de alguém, em algum lugar que ele nem presumia. E quando percebia que ele a picava e amuava, propositadamente. Enfim, apetecia-lhe dizer como nos filmes que a dona o punha ver, sentado ao lado dela no sofá: “Get a room!” (Que ela não o ouvisse, claro!). Outras vezes falavam seriamente. Nessas alturas, Fuscas aguçava as orelhas para ouvir melhor. Ouvia-a responder-lhe, abespinhada e de nariz arrebitado: ” A vida é feita de momentos. O valor do tempo está na intensidade com que é vivido.”

            E não saíam daquilo. Ambos queriam o mesmo, ambos diziam o mesmo, ambos pensavam o mesmo, ambos caminhavam na mesma direção, mas insistiam em contrariar-se. A verdade é que ambos se sentiam seguros naquela zona de conforto, ora pachorrenta ora frenética. Que se entendessem! Aquilo estava para durar!

            O sol adormecera, de novo, e as nuvens derramavam-se sobre a Terra numa cortina de água cerrada. Fuscas enroscou-se mais na macia almofada e fechou os olhos ao som do sorriso da voz da dona.

sábado, 20 de outubro de 2012


SEDUZ-ME

Sem refletires.

Percorre o mundo,
Inventa uma cançao.                                           
Faz-me rir.
Toca-me, assim, sem me tocares.

Surpreende-me!
Prende-me!

Fala-me de ti.
Pede ao vento que me acaricie com os teus dedos …
Transforma as minhas dores em sorrisos.

Consome-me!

Despe-me da poeira do passado,
Queima-me com o teu fogo,
Veste-me com o perfume do teu sorriso,
Enche-me com o teu riso …
 
Veste-me de paixao,
rasga-me o coração!

Deixa-me morar-te!
Quero ser-te!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012



A VIDA NUM SOPRO

            Um romance que atravessa os conturbados anos 30, em Portugal, e que culmina num fim trágico que vinha a delinear-se desde o meio da história. Um país profundamente conservador, marcado por valores tradicionais impostos pelo Estado Novo e a sua polícia política, a PVDE.

 Lamentavelmente, explora-se mais a Guerra Civil de Espanha do que o pano de fundo histórico português. Teria sido interessante aprofundar o retrato social e político de uma época ainda tão recente e cujas repercussões ainda se manifestam na nossa sociedade. Algumas incongruências básicas tendem a baralhar o leitor.

A linguagem é corrente, simples, fluída, sem grandes pretensões a nível literário, o que me parece um incentivo à leitura por parte de leitores menos experientes.

Ao que parece, a história baseia-se na vida real dos avós do autor, o que se revela bastante atrativo. Quem não tem histórias de família deste género para contar? Falta é criatividade e capacidade de escrita – mesmo em linguagem corrente, simples e fluída! – para as contar!


José Rodrigues dos Santos nasceu em Moçambique, em 1964. Começou a sua carreira como jornalista, em Macau, na Radio Macau. Licenciou-se e doutorou-se, posteriormente, em Comunicação Social, na Universidade Nova de Lisboa, em 1987. Foi trabalhar para londres para a BBC e regressou a Portugal, em 1990, para a RTP. Colaborou com a CNN de 1993 a 2001. Ganhou vários prémios académicos e jornalísticos. Para além de jornalista é professor de ciências da educação e escritor.

Escreveu: A Ilha das Trevas (2002), A Filha do Capitão (2004), O Codex 632 (2005), A Fórmula de Deus (2006), O Sétimo Selo (2007), A Vida num Sopro (2008), Fúria Divina (2009), Conversas de Escritores (2010), O Anjo Branco (2010), O Último Segredo (2011) 

 

 

terça-feira, 9 de outubro de 2012


SEM MÃO NO DESTINO (?)


Há momentos que não conseguimos controlar, porque as circunstâncias são adversas. Mas há outros em que o rumo das nossas vidas está nas nossas mãos, depende única e exclusivamente da nossa vontade, do nosso comportamento. É nos momentos de decisão que o nosso destino se traça, é uma questão de escolha, uma aprendizagem. Não há tempo, espaço, pessoas, qualquer atenuante que justifique a nossa omissão. E, no entanto, quantas vezes nos falhamos a nós próprios, nas curvas da vida! Por orgulho, por vaidade, por medo. Quantas vezes apetece deixar o destino decidir por nós: ir ou ficar, arriscar ou esperar, aceitar ou recusar. E, depois, chegam os “se” da vida, Como teria sido se …

 As coisas boas da vida pagam-se caro, quanto melhores mais elevado o preço, (o que eu quero tem o preço da minha rendição!).

Sabe bem pensar que certos momentos não são um acaso. Mas, afinal é o nosso caráter que faz o nosso destino, ele emerge de cada um de nós, não nos é exterior. E é, também, em busca do destino que cada um se descobre a si mesmo, se (re)conhece. Será por isso um erro tentar ver muito longe no futuro.

Cumpra-se este ‘destino’!

domingo, 7 de outubro de 2012


VIDA
 
Vida!
Palpitas lá fora.
Intensa.
Luminosa.
Forte.

Tiveste-me, lembras-te?
Como um amante fogoso
Tiveste-me inteira,
Corpo e alma.
Possuíste-me com o ardor da paixão. 

E abandonaste-me …
Expulsaste-me do paraíso,
Fechaste-me a porta.

Agora desfilas perante mim a tua beleza,
Aguças-me o desejo,
Pavoneias-te relembrando-me o que me negas…


Poema inacabado por descida súbita ao Inferno ...