... pelo simples e indelével prazer da leitura e da escrita!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012


VIDAS RECRUZADAS 

            Meio dia em ponto. Cumpria-se o ritual das últimas semanas. O carro parou em frente à janela dela. Ele saiu. Cumprimentaram-se. Ele dirigiu-se a casa. Ela seguiu-o com os olhos, ele com o pensamento e o sorriso divertido de quem se sabe seguido. Ao entrar em casa, virou-se, acenou-lhe e ela retribuiu. A porta fechou-se. A janela fechou-se.
            E, um dia, o encontro na loja dos telemóveis. O sorriso. A fila que desesperava por andar. O cumprimento. E a fila que não andava. A conversa de circunstância. A fila que não andava. A conversa mais próxima. A fila que, felizmente, não andava. Ele, divorciado, de volta a casa dos pais. Ela, livre, na mesma casa. A maldita máquina que gritava já o número da senha dela. Os longos momentos de conversa com o funcionário. A pressa fingida da despedida. A deceção do nada.
            E, subitamente, a voz dele a agarrar o momento. “ Um café, à tarde, no Lusitano? ”. E o sol a inundar o tempo do reencontro.  

quinta-feira, 25 de outubro de 2012


ENTRE DÚVIDAS E CERTEZAS

            A certeza traz a tranquilidade. Toda a dúvida suscita dor antecipada e eventualmente desnecessária. É sempre mais difícil de suportar do que a dor de uma má certeza. Esta, mesmo quando dolorosa, acaba por, a pouco e pouco, inspirar a sensação de calma, de que o mundo gira no eixo certo. A certeza permite agir com discernimento, em função de um objetivo. A dúvida agita-nos, desorienta-nos, baralha as emoções, é leal e infiel, verdadeira e falsa, faz-nos cair, errar, sofrer.
            Mas não pode a certeza ser mais perigosa do que a dúvida? Não será esta fruto da imaginação, da inteligência? Ah, e o rompante da incerteza que traz emoção à vida?!
            Cheia de duvidosas certezas!

terça-feira, 23 de outubro de 2012


MACHOS E FÊMEAS


            Fuscas espreguiçou-se, languidamente, na fofa almofada  colocada num canto estratégico da sala. Fugira das mãos geladas da chuva e aquecia-se, agora, na poeira dos dedos quentes do sol tardio. Havia dois meses que chegara àquela casa e reconhecia, apesar da rabujice que habitualmente demonstrava, que já se afeiçoara ao espaço e àquela dona de humores incertos, mas intensos. Apesar de partilhar a absurda mania de os humanos tratarem os gatos como se fossem idiotas e de o encher de festas lamechas. Chamava-lhe ‘’bichaninho’’ – ‘’bichaninho’’, ele!!! -, mas também tinha o seu feitiozinho, coisa que lhe agradava profundamente. Percebia-lhe o caráter semelhante às criaturas do mesmo género da sua própria espécie. Era volúvel e tinha acessos ora de fúria ora de uma lamechice enjoativa. Uma vez ouvira-a, de telemóvel na mão, dizer ao interlocutor: “Tenho horror do ridículo!”.  Sentia alguma solidariedade para com o pobre, que adivinhava ser, salvaguardadas as devidas diferenças, uma criatura humana do seu género. Mas, aquelas palavras da dona fizeram-no render-se a ela. Afinal, o género feminino devia ser todo igual! Ele, sim, considerava-se um gato de raça. Ciumento, interesseiro e desconfiado.

            Por vezes, a dona escorria mel, a voz aveludava-se-lhe e quase ronronava. Outras - a Fuscas eriçavam-se-lhe os pêlos! -, quase a via pôr as unhas de fora, afiadas e prontas a rasgarem o pescoço do interlocutor. Apesar do caráter insolente de que se gabava, sentia um certo respeito por uma fêmea irritada. (Se ela pudesse ler-lhe as palavras! Não percebia por que é que as criaturas humanas do sexo feminino sentiam como pejorativa a palavra fêmea. Mas sabia que, se a dona o ouvisse … nem queria imaginar o que lhe aconteceria!) Sabia do que eram capazes. E a sua dona exasperava-se com alguma facilidade. Ou seria aquela criatura específica do género masculino que a levava a limites que já lhe pareciam ilimitados? A verdade é que não lhe conhecera outro interlocutor. Já percebera que ela ficava solenemente irritada quando percebia que ele lhe percebia os ciúmes de alguém, em algum lugar que ele nem presumia. E quando percebia que ele a picava e amuava, propositadamente. Enfim, apetecia-lhe dizer como nos filmes que a dona o punha ver, sentado ao lado dela no sofá: “Get a room!” (Que ela não o ouvisse, claro!). Outras vezes falavam seriamente. Nessas alturas, Fuscas aguçava as orelhas para ouvir melhor. Ouvia-a responder-lhe, abespinhada e de nariz arrebitado: ” A vida é feita de momentos. O valor do tempo está na intensidade com que é vivido.”

            E não saíam daquilo. Ambos queriam o mesmo, ambos diziam o mesmo, ambos pensavam o mesmo, ambos caminhavam na mesma direção, mas insistiam em contrariar-se. A verdade é que ambos se sentiam seguros naquela zona de conforto, ora pachorrenta ora frenética. Que se entendessem! Aquilo estava para durar!

            O sol adormecera, de novo, e as nuvens derramavam-se sobre a Terra numa cortina de água cerrada. Fuscas enroscou-se mais na macia almofada e fechou os olhos ao som do sorriso da voz da dona.

sábado, 20 de outubro de 2012


SEDUZ-ME

Sem refletires.

Percorre o mundo,
Inventa uma cançao.                                           
Faz-me rir.
Toca-me, assim, sem me tocares.

Surpreende-me!
Prende-me!

Fala-me de ti.
Pede ao vento que me acaricie com os teus dedos …
Transforma as minhas dores em sorrisos.

Consome-me!

Despe-me da poeira do passado,
Queima-me com o teu fogo,
Veste-me com o perfume do teu sorriso,
Enche-me com o teu riso …
 
Veste-me de paixao,
rasga-me o coração!

Deixa-me morar-te!
Quero ser-te!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012



A VIDA NUM SOPRO

            Um romance que atravessa os conturbados anos 30, em Portugal, e que culmina num fim trágico que vinha a delinear-se desde o meio da história. Um país profundamente conservador, marcado por valores tradicionais impostos pelo Estado Novo e a sua polícia política, a PVDE.

 Lamentavelmente, explora-se mais a Guerra Civil de Espanha do que o pano de fundo histórico português. Teria sido interessante aprofundar o retrato social e político de uma época ainda tão recente e cujas repercussões ainda se manifestam na nossa sociedade. Algumas incongruências básicas tendem a baralhar o leitor.

A linguagem é corrente, simples, fluída, sem grandes pretensões a nível literário, o que me parece um incentivo à leitura por parte de leitores menos experientes.

Ao que parece, a história baseia-se na vida real dos avós do autor, o que se revela bastante atrativo. Quem não tem histórias de família deste género para contar? Falta é criatividade e capacidade de escrita – mesmo em linguagem corrente, simples e fluída! – para as contar!


José Rodrigues dos Santos nasceu em Moçambique, em 1964. Começou a sua carreira como jornalista, em Macau, na Radio Macau. Licenciou-se e doutorou-se, posteriormente, em Comunicação Social, na Universidade Nova de Lisboa, em 1987. Foi trabalhar para londres para a BBC e regressou a Portugal, em 1990, para a RTP. Colaborou com a CNN de 1993 a 2001. Ganhou vários prémios académicos e jornalísticos. Para além de jornalista é professor de ciências da educação e escritor.

Escreveu: A Ilha das Trevas (2002), A Filha do Capitão (2004), O Codex 632 (2005), A Fórmula de Deus (2006), O Sétimo Selo (2007), A Vida num Sopro (2008), Fúria Divina (2009), Conversas de Escritores (2010), O Anjo Branco (2010), O Último Segredo (2011) 

 

 

terça-feira, 9 de outubro de 2012


SEM MÃO NO DESTINO (?)


Há momentos que não conseguimos controlar, porque as circunstâncias são adversas. Mas há outros em que o rumo das nossas vidas está nas nossas mãos, depende única e exclusivamente da nossa vontade, do nosso comportamento. É nos momentos de decisão que o nosso destino se traça, é uma questão de escolha, uma aprendizagem. Não há tempo, espaço, pessoas, qualquer atenuante que justifique a nossa omissão. E, no entanto, quantas vezes nos falhamos a nós próprios, nas curvas da vida! Por orgulho, por vaidade, por medo. Quantas vezes apetece deixar o destino decidir por nós: ir ou ficar, arriscar ou esperar, aceitar ou recusar. E, depois, chegam os “se” da vida, Como teria sido se …

 As coisas boas da vida pagam-se caro, quanto melhores mais elevado o preço, (o que eu quero tem o preço da minha rendição!).

Sabe bem pensar que certos momentos não são um acaso. Mas, afinal é o nosso caráter que faz o nosso destino, ele emerge de cada um de nós, não nos é exterior. E é, também, em busca do destino que cada um se descobre a si mesmo, se (re)conhece. Será por isso um erro tentar ver muito longe no futuro.

Cumpra-se este ‘destino’!

domingo, 7 de outubro de 2012


VIDA
 
Vida!
Palpitas lá fora.
Intensa.
Luminosa.
Forte.

Tiveste-me, lembras-te?
Como um amante fogoso
Tiveste-me inteira,
Corpo e alma.
Possuíste-me com o ardor da paixão. 

E abandonaste-me …
Expulsaste-me do paraíso,
Fechaste-me a porta.

Agora desfilas perante mim a tua beleza,
Aguças-me o desejo,
Pavoneias-te relembrando-me o que me negas…


Poema inacabado por descida súbita ao Inferno ...

terça-feira, 2 de outubro de 2012