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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

OUTROS CARNAVAIS


OS NOIVOS

            A manhã de terça-feira de Carnaval ia adiantada, por isso as duas raparigas trabalhavam com afã para terminarem a estranha tarefa. Como qualquer menina prendada da época, as irmãs cedo tinham começado a aprender a costurar. As agulhas entravam e saíam dos tecidos com rapidez, deixando um rasto de pontos seguros e precisos. Finalmente, os fatos estavam prontos. Seguia-se, agora, a difícil empreitada de os vestir. Os tecidos eram delicados e o diminuto tamanho das roupas e de quem as vestia dificultavam a tarefa.
            Desceram as escadas do sótão a correr, gritaram para a mãe, que já preparava o almoço na cozinha, que iam a casa do Luizinho e voaram através do guarda-vento até à porta da rua. Atropelaram um gato e dois vizinhos antes de abrirem, com espavento, a porta do prédio onde vivia o amigo. O rapazote já as esperava e desceu num instante. A conspiração, que se iniciara no dia anterior, exigia compenetração. Luizinho recebeu a caixa de papelão das mãos das meninas e, com gravidade, dirigiu-se, sempre pelo passeio, até ao seu destino.
            A dona Carminda chegava do talho do senhor Dionísio, quando o filho dileto da rua a abordou com o ar sério que, apesar da idade, já o caracterizava.
            - Um presente das meninas Horta, dona Carminda.
            A senhora estranhou a situação, mas, pensando tratar-se de um pedido de desculpa daquelas pestes, e uma vez que o presente vinha pela mão do Luizinho, rapazinho ajuizado cujo futuro diplomático já se antevia, aceitou a caixa e abriu-a.
            A princípio não percebeu muito bem o que continha. Ao tocar nas estranhas roupas, no entanto, a senhora tornou-se lívida e, deixando cair a caixa, desatou a correr, rua abaixo, gritando, desgrenhada e enlouquecida.
            Pela porta entreaberta do prédio do amigo, as duas meninas choravam, copiosamente, de tanto riso. Espalhados no chão da rua, jaziam os corpos das duas ratazanas, mortas, na véspera - por ratoeiras  conseguidas sabe-se lá onde! O véu da “noiva” rasgado na queda, o fraque do ”noivo” sem uma manga. Um enlace desfeito!


NOTA: Asseguro que o 'humor' não se desenvolveu exatamente da mesma forma na família!

2 comentários:

  1. Olá, Ana!

    Essas duas prendadas meninas afinal eram frescas...Ratos travestidos de noivos, se não é humor negro, é pelo menos cinzento...

    E viva a boa disposição, já que é Carnaval!
    Uma abraço.
    Vitor

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  2. Brincadeira de Carnaval um pouco malvada :)

    Beijinho

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