... pelo simples e indelével prazer da leitura e da escrita!

sexta-feira, 6 de setembro de 2013


HISTÓRIA DE UM CERTO ENGANO

Era uma vez um engano. Bem, a verdade é que nem sempre fora isso. Tempos houve em que o engano tinha sido uma certeza. … Não se pode acusar o pobre de ter sido um engano propositado. Pois se não tinha consciência de tal!

            Dera por si, certa tarde, devagarinho, assim como quem acorda de um coma sem memória de quem é. Aos poucos, foi-se reconhecendo e afirmando como uma certeza. A sua existência como tal tornou-se, até, um finca pé consigo próprio. Era uma certeza. Estava ali. Pronto!

            Mas, como a realidade era, de facto, diferente da consciência que tinha de si, a pouco e pouco, foi sendo tomado pela dúvida. O tempo, esse ora aliado consolidando certezas ora inimigo instilando dúvidas, foi minando a certeza da sua existência.

            Como era possível, pensava o engano, ter-se enganado daquela forma quanto à sua certeza? E agora? Como desfazer claramente a certeza e assumir-se como engano? Não lhe agradava causar a impressão de ser um engano premeditado. Precisava de se desfazer com elegância. O melhor seria sair da certeza em pezinhos de lã, assim como quem não quer a coisa. Deixar no ar a certeza-dúvida para adiar a possível acusação de engano ponderado e previsto. Afinal, ele próprio se tinha enganado!

            Assim, arregaçando mangas e paciência, foi-se desvanecendo como certeza, dando, lentamente, lugar ao engano que sempre tinha sido.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013


LONGE
            O carro rolava à velocidade do passeio de domingo. Quase deserta, ao início daquela tarde de verão, a estrada secundária.
            A voz do companheiro começou a diluir-se na distância que, a pouco e pouco, se ia criando entre eles. Acenava com a cabeça, murmurava um ‘hum, hum’, de vez em quando, mas os seus olhos iam-se detendo numa curva familiar, uma casa particular, um jardim que o seu coração reconhecia, à medida que avançavam.
            Há quanto tempo não pensava nele? Na verdade pensava sempre nele. Desistira de tentar esquecê-lo. Mas há muito tempo que conseguira deixar de lembrar, constantemente, aquele tempo.
            Quando o amigo insistira em tomar aquele caminho, não pensara no assunto. Mas, à medida que os seus olhos iam reconhecendo os lugares, o coração ia recordando cada conversa, cada gargalhada, cada malícia. Já não lhe doía como antes. A angústia em forma de dor lancinante fora sendo substituída por aquela melancolia profunda.
            Impossível não comparar a alegria daqueles tempos com a monotonia do presente. O caminho fazia-se, então, de tranquilidade e sobressaltos, de risos e seriedade. Mas, sobretudo, da certeza de um caminho partilhado. Agora, apenas um vazio de saudade certa de longevidade.

domingo, 25 de agosto de 2013


NAÇÃO CRIOULA

            Escrito em forma epistolar, mas estruturado como um romance clássico, Nação Crioula (nome do último barco negreiro que cruzou os mares entre Angola e o Brasil) ressuscita a personagem coletiva criada por Eça de Queiroz e os seus amigos do Cenáculo, Fradique Mendes.
            Tendo por base a História de Portugal, do Brasil e de Angola do séc. XIX, Agualusa centra a ação no tráfico de escravos (Angola continuava a abastecer o Brasil com escravos, mesmo depois da proibição da escravatura), mostrando as contradições e conflitos daquelas duas sociedades coloniais, fazendo, no fundo, uma crítica irónica ao colonialismo português. Movimento abolicionista versus escravocratas.
            A credibilidade de Fradique Mendes, enquanto personagem (que se sabe ficcionada) é-nos dada através de outras personagens, também ficcionadas, mas inspiradas na realidade e pelas cartas de Fradique ao próprio, Eça, à sua madrinha Madame de Jouarre e à sua amada Ana Olímpia. Em Agualusa, Fradique continua a ser um homem movido pelas emoções, pela vontade de conhecer e entender novas culuras, marcado por inúmeras viagens, um homem adiantado para o seu tempo. Mas aparece preocupado com as questões políticas do Brasil e de África, com uma postura muito menos discreta do que em Eça.
            A não perder!


 

A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES

                Depois de ler Nação Crioula de José Eduardo Agualusa, foi-me impossível resistir a reler A Correspondência de Fradique Mendes de Eça de Queiroz.
            Dividido em duas partes, sendo a primeira (apresentação da personagem) a introdução à segunda (as cartas propriamente ditas), o livro apresenta a personagem Fradique Mendes como se tivesse realmente existido, privando com personagens reais. Uma personagem fascinante, ressuscitada, recentemente, por José Eduardo Agualusa.

domingo, 18 de agosto de 2013


UM POÇO À BEIRA-MAR

Saí da água gelada, tiritando daquele friozinho alegre de férias, e subi a areia aos pulinhos para me deitar ao sol a secar. Tenho sete anos e não há nada na vida de que goste mais do que estar metida dentro deste mar gelado e bravio. É claro que a presença dos meus pais constantemente à minha volta me dava aquela ideia de segurança total. Para quem com um ano de idade berrava como se a estivessem a esquartejar só de ver a areia … melhorei até demais, segundo os meus pais.

            A gritaria e a correria da multidão já tinham começado há uns minutos, quando consegui escapulir-me das mãos da minha mãe, gritando-lhe que ia ter com o meu pai que, entretanto, já estava à beira mar. Se os sete anos nos impedem de fazer muitas coisas, também nos permitem cirandar por entre uma mole humana afligida por uma tragédia.

            Na areia molhada, quase dentro de água (felizmente, naquela manhã, a maré estava baixa), um grupo de homens, deitados de barriga para baixo, formava um círculo à volta de uma corda que demarcava a linha para lá da qual não deveriam passar. Atrás de cada homem, outro o segurava, firmemente, pelos pés. Os homens deitados no chão escavavam a areia dentro do círculo marcado pela corda com um cuidado inquieto.

A certa altura, no meio do círculo, longe do alcance das mãos dos homens, a areia molhada começou a abater, afundando-se como num remoinho. A multidão gritou em uníssono. Num ápice, um dos homens soltou-se do que lhe segurava as pernas, saltou para o meio do círculo e escavou, desesperadamente, o buraco que a areia abria. Em poucos segundos tinha o braço direito todo metido dentro da areia e ao retirá-lo todos pudemos ver, na sua mão, uma pequena mecha de cabelos claros. Os outros homens esqueceram o cuidado, saltaram para dentro do círculo e escavaram furiosamente a areia à volta do braço do primeiro. De dentro do emaranhado de braços e mãos surgiu, então, uma visão horrenda: a cabeça de um garoto de cerca de dez anos! O rosto coberto de areia, os olhos fechados, a língua de fora completamente roxa e cheia de areia.

Mais confiantes na escavação, rapidamente retiraram todo o corpo inerte do miúdo. Ao grito horrorizado de quem assistia ao salvamento seguiu-se um silêncio arrepiante. Até as ondas marulharam baixinho. Mas bastaram poucos segundos para que o rapaz tossisse e iniciasse uma berraria pouco própria de quem deveria ter os pulmões cheios de areia.

Foi a única vez que vi um grupo de homens chorar.

Infelizmente nunca soube o que se terá passado a seguir. A mão do meu pai que me deveria ter dado dois pares de estalos e a voz da minha mãe que me deveria ter gritado silenciaram-se num carinho ainda mais doce do que o habitual.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013


 
A PRAIA

Hoje revisitei-me há 30 anos.
As pedras grandes e pequenas, bem macias. Os rochedos de superfície rugosa e escorregadia. Os rastos de espuma branca. A água límpida e fria à beira mar. E logo ali, a não mais de cinco passos, a profundidade negra de um mar bravo pouco seguro para inexperientes, mas estranhamente cheio de novos e velhos, homens e mulheres, crianças e pescadores. Sim, naquele tempo, os barcos de pesca disputavam com os veraneantes tanto o espaço do areal como o do mar.
Por vezes, a uns bons metros da praia, formava-se um extenso banco de areia para onde nos dirigíamos logo de manhã. Ficávamos ali deitados ao sol, com a água a molhar-nos o corpo enquanto a maré subia. Na volta, tínhamos de nadar até à praia, porque a subida da maré nos fazia perder o pé e porque o fundo do mar, escuro e assustador, estava coberto de algas macias e escorregadias que nos lembravam monstros desconhecidos.
E sempre aquele sol escaldante a penetrar na pele já seca, depois do banho, como agulhas finíssimas. A areia a escaldar, queimando os pés, obrigando-nos a correr, aos pulos, até alcançarmos a passadeira de madeira. Daquelas antigas, estreitas, onde só cabia uma pessoa, feitas de ripas de madeira distantes entre si e cheias de ameaçadores pregos.
Nos fins de tarde, o por do sol tingia-nos a pele de um laranja quente que cheirava a areia e a verão. Maresia a pairar no ar, a entranhar-se nas roupas, no cabelo, na pele.  
E aquela extensão de praia! Areia a perder de vista! Um mundo de possibilidades a explorar.
À noite tudo ficava mais luminoso, as cores mais vivas, os risos mais vivos. Outra magia.
Guardo os cheiros, as cores, as texturas. A memória de uma vida que foi, de facto, cor-de-rosa!

domingo, 11 de agosto de 2013


OS LINDOS BRAÇOS DA JÚLIA DA FARMÁCIA

            Depois d’ A Amante Holandesa, tinha de ler mais José Rentes de Carvalho. Desta vez, temos uma série de contos sobre temas diversos - muitos deles ligados à terra -, e espaços diferentes: Lisboa, o norte de Portugal, Paris, Nova Iorque, Holanda. Ficção e realidade misturam-se, tal como narrador e autor.

            De facto, este é um escritor exímio, cuja prosa contida e equilibrada, em equilíbrio com uma análise mordaz da sociedade, nos faz sentir que, simplesmente, sabe contar bem uma história.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013


 NO INFINITO

Já hoje fui contigo ao Infinito. Vesti-me de pele e preparei-me para te seguir limpa de mundo. (Mentira. Conheço-te. Sei que não posso despir-me de mim para me deixar levar, segura, plena da tua vontade.)

Pegaste-me pela mão e voámos pelos caminhos tortuosos que sempre escolhes. Mesmo os limpos acabam por ganhar escolhos que insistes em recolher para os atrapalhares.

Pássaros desorientados, ora subindo ora descendo. Porque os caminhos que escolhes se truncam uns nos outros, perdem o sentido, terminam no nada.

Em desvario dos sentidos, subimos tão alto que acreditámos ter atingido o ‘máximo+1’. (Mentira. Conhecemo-nos. Ambos sabemos que ‘bom’ é o nosso limite.)

Finalmente exaustos, sentaste-nos em nuvem aparentemente tranquila. Sacudimos a poeira da alma e conversámos sobre tudo e sobre nada, avançámos, recuámos. Rimos e sonhámos momentos mágicos.

E, de repente, como sempre, sem pré-aviso, descemos a uma velocidade atroz. Precavidos, pousámos os pés em terra, escapando com alguns arranhões.

Um dia, estatelar-nos-emos no chão …

                                      ou

Um dia, um de nós já não sentirá vontade de subir …

segunda-feira, 29 de julho de 2013


INFERNO

 
E pronto! Completamente imbuída da ameaça (iminente, segundo Dan Brown, através do seu terrífico protagonista) da tragédia que a sobrepopulação causará à humanidade. E ainda dizem que é preciso que nasçam muitos meninos! Livra!

quinta-feira, 18 de julho de 2013


A AMANTE HOLANDESA

Ficamos a conhecer o mundo interior de dois homens, amigos de infância, ambos transmontanos, mas com percursos de vida totalmente diferentes. Ou talvez não. Ambos sofrem angústias, frustrações, vidas com que não sonharam, mas que não conseguem mudar. Segredos inconfessáveis, alguns desvendados, outros simplesmente adivinhados transportam-nos a um mundo de ilusões e desilusões. Lê-se de um só fôlego e fica-se com uma sensação de vazio, no fim.

José Rentes de Carvalho nasceu em Vila Nova de Gaia, em 1930. Estudou Direito e Línguas Românicas, na Universidade de Lisboa. Saiu de Portugal por motivos políticos e viveu no Brasil, onde trabalhou como jornalista, Estados Unidos da América e França. Em 1956, foi viver para Amesterdão, onde continuou a sua carreira de jornalista e romancista.

quarta-feira, 10 de julho de 2013


100 PORTUGUESAS COM HISTÓRIA

Conhecemos, através deste livro, a vida de 100 mulheres portuguesas que marcaram o seu tempo. Organizada cronologicamente, desde o séc. X até ao XX, a obra dá-nos a conhecer a época, a vida quotidiana, familiar, profissional, emocional de cada uma destas mulheres – umas conhecidas, outras não - e o que as tornou diferentes. No final, ficamos com uma panorâmica da história de Portugal através das mulheres. 

Anabela Natário nasceu em Lisboa, em 27 de janeiro de 1960. Licenciada em jornalismo, iniciou a sua carreira no Correio da Manhã, tendo passado, depois, pela Agência Lusa e pelo Jornal Público. Foi adjunta do presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Foi fundadora do jornal 24 Horas. Posteriormente, criou a empresa Énetextos. É editora do Courrier International.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

APENAS


          Que se aquietem todos! Que saibam que não somos um ‘nós’, que escolhemos, conscientemente, sermos teia de nuvens a anunciar tempestade … mar revolto a ameaçar naufrágio … dunas a formar tempestade de areia … flores bravias a gritar primavera … pássaros selvagens a roçar o infinito … sol de inverno a imitar calor. Apenas.

Que se aquietem todos! Que saibam dos receios, do desprendimento, da lassidão! Que saibam que decidimos não ser. Que as nuvens se contiveram, que o barco se manteve à tona, que a areia acalmou, que os pássaros não levantaram voo, que o sol não aqueceu.

Nunca fomos!

quarta-feira, 26 de junho de 2013

                           “Arquiteto do Futuro”

 
                    Não faço greve a ideias mais brilhantes:

                    Alavancas do Sonho e Eternidade;

                    A opiniões assaz edificantes:

                    Ninhos do alpendre “Amor e Dignidade”. 
 

                    Não faço greve à vida dos infantes:

                    Quadro e giz da matéria “Honestidade”;

                    À luta que leciono como dantes:

                    Par de asas p’ra dar “20” à “Liberdade”.

 
                    Não faço greve apenas por fazer;

                    Cumpro os Outros ainda por nascer:

                    Degraus ao lado do mais alto muro.
 

                     Não faço greve por imitação;

                     Não dou aulas, mas “dou uma lição”:

                     Dever de um “Arquiteto do Futuro”!

 
                         

                     26/6/2013                                            Paulo Ilharco

 

 

terça-feira, 25 de junho de 2013

MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA
 
 

Um dos mais belos filmes que vi!
Não iguala, certamente, o livro, mas é um excelente complemento. Sendo que, habitualmente, os filmes nascidos de livros deixam uma sensação de 'falta', neste conseguiu-se, do meu ponto de vista, passar os sentimentos mais importantes.
Simplesmente delicioso!

segunda-feira, 10 de junho de 2013


O CHAPÉU DE CHUVA

            A chuva caía miúda, constante, fria. Parada no tempo. Cinzento. Indiferente. Nada era bom, bonito, alegre. Noutro lugar do mundo o sol brilharia, as cores refulgiriam e os sorrisos voariam, soltos pelo ar. Mas aqui a tristeza, o vazio. Carregava em mim todos os pesos do mundo.
            O chapéu de chuva seguia-me. Presente, protetor. O caminho fazia-se lentamente. Nas minhas costas dezenas de pares de olhos concentrados em mim. Dezenas de pensamentos na minha direção. Adivinhava-lhes as reflexões. As de cada um. Deve ser assim que se sentem as estrelas de cinema. Mas em bom. Sabia que em breve todos esses pares de olhos esqueceriam a comiseração do momento.
O desenho da calçada portuguesa no chão apresentava-se sujo e molhado. E o chapéu de chuva por cima da minha cabeça. Protegendo-me dos olhares cravados em mim. O caminho fazia-se em silêncio. O silêncio asfixia todos os barulhos. O silêncio de dezenas de passos. Atrás de mim, seguindo-me como se eu pudesse conduzi-los a um destino específico. Pendentes do meu ritmo, do meu rumo, das minhas emoções por soltar. E o chapéu de chuva protegendo-me, criando um muro para lá do qual as emoções esperavam a solidão.
            Concentrada no ruído das rodas sobre o empedrado, mordi as lágrimas que o chapéu de chuva teria, no entanto, escondido. As lágrimas que não choradas ninguém me perdoaria. Segui-o consciente de cada movimento, de cada som…
            Sabia que a vida me estava a virar do avesso, mas ainda não tinha descoberto que o avesso é o meu lado. Os pensamentos estavam demasiado desarrumados. Nos olhos vivia-me a vida passada. A minha vida suspensa, à espera de ser reescrita. Eu a crescer com o golpe duro da vida e com o teu toque suave na minha alma.

            Décadas de minutos mais tarde, um cemitério de dores ficava para trás. E o teu chapéu de chuva protegendo-me, enquanto te via desaparecer no espelho retrovisor…

domingo, 9 de junho de 2013


AS TRÊS MULHERES DE SANSÃO

    
        O livro é constituído por duas novelas, a primeira das quais lhe dá o título. Essa conta-nos a biografia amorosa de Sansão, retratando três figuras de mulher. A segunda novela apresenta-nos uma história de província, cujas personagens e cenários nos transportam para um Portugal distante no tempo, mas facilmente reconhecível nas palavras do autor.

Aquilino Ribeiro nasceu em Sernancelhe, Carregal, em 13 de setembro de 1885 e morreu em Lisboa, em 27 de maio de 1963. Foi um dos mais fecundos romancistas de primeira metade do séc. XX, tendo publicado com regularidade e êxito junto do público e da crítica. Maçónico, anarquista e apoiante dos regicidas, dividiu a sua vida entre Lisboa, Paris e Alemanha. Optou por uma literatura de tradição, usando uma linguagem vernácula, cheia de provincianismos. No entanto, por ter procurado, sistematicamente, uma renovação contínua de temas e processos, não pode ser enquadrado em nenhuma das escolas e tendências da sua época.

sexta-feira, 17 de maio de 2013


UM MAR DE MEMÓRIA

            Sentada na esplanada do café, como habitualmente nos fins das tardes de verão, o meu coração sobressaltou-se ao som daquela voz. Dei por mim, mais uma vez, a desatar o nó da dor da saudade.
As mulheres apaixonam-se precisamente pelos homens que não lhes estão destinados. Ele não me estava destinado, mas eu insisti em apaixonar-me por ele. A minha persistência não o iliba de responsabilidade, mas sim de culpa. Ninguém é culpado pelos sentimentos que instiga no outro. Mas, é-se responsável por tal, se o fazemos propositadamente.
As relações mal definidas são quase indestrutíveis. Deixei que, em vez de falarmos de amor, falássemos sobre o amor, enganando com a ajuda de palavras uma inquietação que deveríamos ter resolvido com atos.
Sempre desconfiada e relutante, soube, desde o início, que seria ele a conduzir o jogo. Como um caçador experiente, rondou-me, cercou-me. Eu apenas um despojo, objeto da sua pertença, escolhido durante o saque entre duas batalhas.
Passávamos longas horas a conversar. Ora silêncios ora fluxos de palavras descontroladas. Em pouco tempo, a conversa enlanguescia ou transformava-se em injúrias. Agradava-me aquela espécie de esgrima interessante em que o meu rosto ostentava uma máscara e o dele simulava apresentar-se nu. Ambos perpetuamente desconfiados.
Estava condenada a perder, desde o início. Tornei-me incapaz de abandonar aquele álcool com que não queria, aliás, deixar-me embriagar. A minha atenção estava toda inteira concentrada nele, a sua dividida – família, amigos, trabalho, outras (várias) mulheres.
Como um frémito, um momento aflorou-me aquele recanto da memória. Amei-o, também, naquele preciso momento: numa simbiose perfeita, o toque e o olhar num movimento de desafio mais doce do que todas as carícias. Ao contacto da sua pele, todo o sangue dentro das minhas veias se desfez em mel.
Eu não duvidava de que pagaria penosamente pela resignação de cada minuto de espera, que a minha sensatez rapidamente me cobraria tal erro. Teve para comigo insolências e ternuras alternadas, apenas com o objetivo de se comprazer em fazer-me amar e sofrer mais.
Mas o melhor mel fermenta com o tempo. O seu procedimento para comigo tornou-se cada vez menos censurável, mas passei a puni-lo, talvez fora de tempo.
Exasperei-me, cansada da falta de inteligência dele – não me amar?! -, cansei-me de quimeras, dele e de nós. Perdi-me e perdi-o.
Nunca o esqueci e paguei os meus erros com a sua ausência.
Ele conquistou-me, mas nunca o tive.

 

           

 

quarta-feira, 15 de maio de 2013


MANUSCRITO ENCONTRADO EM ACCRA

« A derrota surge quando não conseguimos algo que queremos muito. O fracasso não nos permite sonhar.
Essas pessoas podem dizer com orgulho: ”Nunca perdi uma batalha.” Mas jamais poderão dizer: “Ganhei uma batalha.”
[…]
Nunca ouviram um ‘Adeus’. Tão-pouco um ‘Eis-me de volta. Abraça-me com o sabor de quem me tinha perdido e voltou a encontrar-me.’
[…]
No silêncio da noite enfrentam as suas batalhas imaginárias: os sonhos não realizados, as injustiças que fingiram não perceber, os momentos de cobardia que conseguiram disfarçar perante todos – menos perante si próprios – e o amor que se atravessou no seu caminho com um brilho nos olhos – o amor que lhes estava destinado pelas mãos de Deus e que, no entanto, não tiveram coragem de abordar.
E prometem: ”Amanhã será diferente.”
Mas o amanhã chega e com ele vem a pergunta que os paralisa: ”E se tudo correr mal?”
Então não fazem nada.
Ai dos que nunca foram vencidos! Também nunca serão vencedores nesta vida.


Blogue de Paulo Coelho

sábado, 11 de maio de 2013


UM FIAPO DE MEMÓRIA

Sentado na esplanada do café, como habitualmente nas manhãs de sábado, o meu olhar demorou-se no som dos saltos da mulher. Dei por mim a retirar do fundo da memória uma fotografia desfocada, tirada a contraluz. Há quanto tempo não pensava nela? Uma eternidade de vazios, certamente.
As mulheres apaixonam-se precisamente pelos homens que não lhes estão destinados. Eu não lhe estava destinado, mas ela insistiu - repito: insistiu! – em apaixonar-se por mim. Tal persistência não me iliba de responsabilidade, mas de culpa sim.
As relações mal definidas são, aliás, quase indestrutíveis. Em vez de falarmos de amor, falávamos sobre o amor, enganando com a ajuda de palavras uma inquietação que deveríamos ter resolvido com atos.
A princípio desconfiada e relutante, a partir de certa altura foi ela que passou a conduzir o jogo. Forte, cerrado, de fêmea convicta. Não era mais capaz de não ser mulher. Cada centímetro do seu corpo gritava um desejo no qual a alma estava ainda mil vezes mais interessada do que a carne. Passávamos longas horas a conversar. Ora silêncios ora fluxos de palavras descontroladas. Em pouco tempo, a conversa enlanguescia ou transformava-se em injúrias. Agradava-me aquela espécie de esgrima interessante em que o meu rosto ostentava uma máscara e o dela se apresentava nu. Ambos perpetuamente desconfiados.
            Estava, já, condenado a perder. Tornei-me incapaz de abandonar aquele álcool com que não queria, aliás, deixar-me embriagar. Além disso, a minha atenção estava dividida – família, amigos, trabalho, outras (várias) mulheres … -, a sua inteira.
            Como um frémito, um momento aflorou-me aquele recanto da memória. Se a tivesse amado, teria sido naquele preciso momento: numa simbiose perfeita, o sorriso e o olhar num movimento de desafio mais doce do que todas as carícias. Ao meu toque, todo o sangue dentro das suas veias se desfez em mel.
Eu não duvidava de que pagaria penosamente por cada um dos meus erros e que a resignação com que ela parecia aceitá-los me seria cobrada a dobrar. Tive para com ela insolências e ternuras alternadas, apenas com o objetivo de me comprazer em fazê-la amar e sofrer mais. O meu procedimento para com ela era tornou-se cada vez menos censurável, mas é-se sempre punido fora de tempo. Pode-se confiar no fogo, desde que se saiba que a sua lei é morrer ou queimar.
Depois de se exasperar, cansada daquilo que tomava por falta de inteligência minha – como poderia eu não a amar?! -, cansou-se de uma situação em que só se deleitam os corações quiméricos, coisa que o seu pragmatismo estava longe de permitir. Cansou-se de mim e perdeu-nos.
            Com o tempo, saiu-me completamente da ideia. Não cheguei a pagar as minhas faltas, porque nunca a amei. Aos poucos foi perdendo a individualidade, as emoções que ela em mim suscitara dissolviam-se à distância na insignificante banalidade de um amor que não pedi nem senti. Ficou-me dela uma recordação desbotada.
Ela foi um país conquistado no qual nunca entrei.

 

O GOLPE DE MISERICÓRDIA

A história passa-se durante a Primeira Guerra Mundial, num lugar remoto dos países bálticos. Retrata uma história de amor que termina em tragédia. Paixão, obsessão amorosa, de Sophie por Eric, amigo do seu irmão Conrad. O livro ganha, também, pela extraordinária introdução de Agustina Bessa-Luís. Uma belíssima, belíssima, belíssima história de amor.

Marguerite Yourcenar nasceu em  Bruxelas, a 8 de junho de 1903, e morreu em Mount Desert Island,a  17 de dezembro de 1987. Escritora belga, foi a primeira mulher eleita para a Academia Francesa de Letras, em 1980. Em 1939 mudou-se para os Estados Unidos, onde ensinou Literatura Francesa até 1949. Teve uma educação excecional desde muito cedo. Sentiu-se sempre atraída pela Grécia e pelo misticismo oriental.